Postado em: 16/05/2010 Última atualização: 21/11/2014 / by LiLi in Nosso Cantinho
 
 

Minhas Experiências nos EUA – Parte II (Intercâmbio)

intercambio
intercambio

Para ler o início do texto ( parte I ), clique aqui!

[…]Acabei sendo escolhida por um casal de mais de 55 anos que nunca teve filhos e que morava numa cidadezinha de 450 pessoas no interior do Texas. Imaginem isso hahaha, saindo de uma cidade de quase 2 milhões para 450, mas tudo bem!

Acho que esse foi um dos períodos mais difíceis da minha vida. Pra começar, cheguei lá a noite… eles foram me buscar em Dallas e de lá fomos de carro pra casa deles… foram as 3 horas mais longas da minha vida! Saímos de Dallas, que é linda e cheia de luz com os seus prédios super modernos e vias expressas para todo lado e fomos parar em Avery, uma cidadezinha pertinho da divisa com o Estado do Arkansas, onde praticamente há só pastos, ruas estreitinhas e casas.  Ah, já ia esquecendo… e uma escola hehe!

Eu, no carro com 2 pessoas que nunca tinha visto na vida, os quais não pararam de fumar um só minuto (sim, eles fumavam 2 carteiras de cigarro cada, por dia) e também não conversavam muito comigo. E, quando conversavam, eu não conseguia entender metade. Entrei em pânico! Pânico mesmo!! As ruas começavam a afinar, de 8 vias passaram pra 6, depois pra 4, 2, 1. O asfalto passou a ser barro e o concreto passou a ser capim. “Bem vinda LiLi, você está entrando numa fazenda e morará aqui por 1 ano!”, pensei alto comigo…

Queria voltar para o Brasil no mesmo momento! Meu Deus, tudo se inverteu! “Não quero mais ficar nesse lugar com essas pessoas. HELPPPP!!” O que eu estava pensando? Por que fiz isso comigo mesma? “Um ano aqui nesse negócio, nunca!! E agora? Eu acabei de chegar, não posso voltar! Minha mãe que tanto me ajudou a convencer o meu pai, vai querer me matar!!”

Como as coisas mudam de uma hora para a outra, né!? Não queria mais saber de cortesia nem de educação do povo, só queria o colinho da mamãe, voltar à minha escola e estar num local urbano. Eu definitivamente não nasci para viver no mato, morro de medo de bichos! E quando falo bichos, me refiro a todos de qualquer tamanho; baratas então, tenho total pavor e não posso nem imaginar uma perto de mim que passo mal.

Mas voltando ao assunto.. finalmente chegamos e o que dizer… que casa linda! Apesar da mesma estar cheirando toda a cigarro, nem liguei… a primeira coisa que queria era telefonar pra minha família. Telefonei e tentei ser forte, falei que estava tudo bem e que já ia dormir. A minha “mãe” americana me mostrou o meu quarto, tudo bem formalmente e pra lá fui eu, sorrindo claro… mostrando que estava grata por poder ficar no mesmo.

Começou aqui o meu período de choro que durou 2 meses e meio. Estava desesperada, de mãos atadas, longe da minha família e amigos num local onde tudo era tão diferente do que eu estava acostumada. Mas creio que meu choque não tenha sido exclusivamente por não estar acostumada a tudo.. mas sim porque minhas expectativas eram outras. Quando pensei em fazer intercâmbio, tinha imaginado ficar numa família onde os pais teriam filhos da minha idade para me fazer companhia e que a família morasse numa cidade grande. Eu havia criado na minha mente como tudo ia ser e a realidade foi outra completamente diferente.

Nesse período dos primeiros meses, eu nem dormia direito. Ficava acordando de hora em hora preocupada em passar do horário e eu acabar perdendo meu “ônibus amarelinho”.  Uma coisa sobre mim que vocês precisam saber é que eu sou muito disciplinada e também nunca gosto de decepcionar as pessoas. Por mais que aquele casal não tivesse o perfil que eu tinha imaginado, eu os tratava muito bem, com muita educação, respeito e fazia sempre questão de ser responsável e dar conta das minhas responsabilidades.

A fazenda que eu morava era a mais distante que existia da escola, portanto eu era a primeira a entrar no ônibus amarelo, e a última a sair. Nessa época eu já tinha 16 anos…imaginem.. eu era a única com 16 anos que ainda andava nesses ônibus! Era 1h por dia aturando um monte de crianças eufóricas gritando sem parar. Nem a motorista do ônibus aguentava, hehe.

Quanto à escola, a mesma era bem pequena… havia em torno de 100 alunos ou um pouquinho mais. Uma das primeiras coisas que eu notei foi a divisão racial. Na hora do almoço, os negros sentavam numa mesa, os brancos em outra. O mesmo dentro das salas de aula… a divisão era aparente. Não precisa nem dizer que eu não entendia quase nada do que os professores falavam, né? O jeito era anotar tudo o que podia e quando chegasse em casa, pesquisar sobre o assunto. Fiz isso durante um bom tempo, todos os dias… sempre com o meu dicionário de bolso comigo.

Minhas aulas começavam às 7:30 da manhã e iam até às 3 da tarde, com intervalo de 1h para o almoço. Eu era da série Junior, o equivalente ao segundo ano do ensino médio no Brasil. Aqui nos EUA não é que nem no Brasil que você fica o dia inteiro na mesma sala e quem se muda é o professor. Ocorre o inverso.. os alunos que se mudam de sala, pois cada sala pertence a um professor. Isso acontece pois o sistema aqui permite que você escolha a ordem que quer ter suas matérias por semestre, além de que, sendo a sala do professor, o mesmo pode equipá-la com tudo referente à matéria, facilitando o aprendizado e botando os alunos “no clima”.

As matérias que eu dei durante o meu ano nos EUA foram completamente diferentes das do Brasil e isso só piorou a minha situação. Fazer amigos então, quanta dificuldade! Pra vocês terem noção, nem na hora do almoço eu conseguia conversar com alguém. Apesar de não haver lugar demarcado nas mesas, todos já haviam eleito os seus lugares, coisa que eu não sabia. Aconteceu várias vezes o caso de eu sentar num lugar e vir alguém pedir para eu me retirar. E assim eu ia migrando. Eles riam de mim, achavam isso engraçado. Isso e outras coisas como por exemplo, rirem do meu sotaque ou das minhas roupas diferentes.

O slogan do Estado do Texas é “Don’t Mess With Texas” o que quer dizer:  “Não mexa com o Texas”. Pra explicar melhor o contexto desse slogan, faço uma comparação do Texas e os estados do centro-sul dos EUA com o norte/nordeste brasileiro, regiões as quais são alvo de discriminação pelo restante do país, os “caipiras”. Enfim, quando li esse slogan num outdoor passeando de carro, pensei comigo… “Hey, Don’t Mess With ME!” e foi assim que inverti o jogo.

O tempo foi meu aliado… com o passar dos dias e meses, quando me acostumei com a rotina  e a dominar mais a cultura e idioma, comecei a quebrar esses ciclos de abuso um a um. Se pediam para eu me retirar de algum lugar, eu dizia que não, pois havia chegado primeiro. Se riam do meu sotaque, eu começava a falar em português e perguntava pra eles se eles poderiam responder o que eu tinha perguntado. Óbvio que a resposta era “não”. Então fiz eles perceberem que eu falava 2 línguas enquanto que eles, somente 1. Alás, me exibia também falando espanhol, só pra dar mais uma impressionada e calar logo a boca de quem ousasse me intimidar.

É gente… os jovem americanos podem ser bem nojentinhos quando querem ser. Isso que se vê em filmes é o que realmente ocorre por aqui. Discriminação de classes, raças e nacionalidades é algo que ocorre sempre. Eles se acham superiores, porém não tem a mínima noção do resto do mundo e se acham o centro do universo.

Com 3 meses morando em Avery foi quando as coisas começaram a melhorar pra mim.  Após esse longo período de adaptação, comecei a gostar dos meus pais americanos e já nos divertíamos muito juntos. No início eu só fazia reclamar deles, buscando aceitação sobre tudo o que fazia. Porém percebi que eu também precisava aceitá-los. Foram eles que abriram suas vidas para mim, colocando também uma total estranha dentro de casa e dentro de toda a família. O que eu precisei entender era que eles eram muito sozinhos, nunca haviam tido filhos, portanto não sabiam ao certo como me tratar, como se dirigir a mim. Nada como o tempo. Quando percebi, já saíamos pra jantar, eles já me olhavam nos olhos e já faziam questão da minha companhia ( e vice versa!).

Fiz uns poucos amigos durante esse ano que passei no Texas. Alguns amigos eu também conheci em 2 viagens que fiz para NY/Washington e pra Flórida. Na minha viagem para a NY por falar nisso, foi a primeira vez que me apaixonei perdidamente! Ele era alemão hihihi e assim como todos da excursão, também era estudante de intercâmbio. O romance acabou devido à distância, pois ele morava em Corpus Christi/TX e logo voltou para a Alemanha. Minha melhor amiga com certeza foi a minha “prima americana” Jennifer, a qual me ajudou bastante a encarar todas as dificuldades que tive durante minha trajetória como estudante de intercâmbio. A família dela é também maravilhosa e sinto muitas saudades daquela época!

Os melhores momentos dessa experiência foram sem dúvida os dos meus “minutos de glória” assim digamos.. os minutos em que eu senti que venci essa batalha! Foram vários! Alguns que posso citar: Dei um concerto de piano para toda a cidade no ginásio da escola sendo aplaudida de pé, tirei as maiores notas da minha série em 90% de todas as matérias que tive, inclusive superando os próprios americanos na matéria “História dos EUA” (ainda tenho os diplomas!) e também dei algumas aulas a pedido da professora de geografia, sobre o Brasil. Acreditem, muitos nem sabiam onde o Brasil ficava no mapa!

Vocês devem estar se perguntando se, no fim de todo esse aperto que passei  eu finalmente tinha tirado os EUA da cabeça, certo? A resposta é: eu não conseguia pensar em nada, estava completamente MORTA de saudades da  minha família e amigos no Brasil, e não via a hora de rever todo mundo!

Minha mãe e irmão vieram me buscar, eles conheceram o pessoal e daí fomos para mais uma viagem costa a costa dos EUA.  Nossa viagem foi maravilhosa e pensei: Poxa, se pudesse transferir todos os meus amigos e família para cá seria perfeito!

Voltamos para o Brasil 20 dias depois e eu estava eufórica! Porém logo nos primeiros dias de volta, lá estava eu em choque novamente, coisa que nunca pensei que fosse ocorrer já que havia nascido e sido criada no Brasil. Fiquei com o rosto cheio de espinhas devido à diferença de clima, meu estômago tinha desacostumado com os temperos brasileiros, além de todos aqueles problemas de falta de educação do povo e etc que eu tanto reclamava no início.. enfim, tudo fazia eu me sentir mal.

Ai não, de novo não. Confesso que tava começando a ficar exausta com tanto troca-troca de tudo. Como havia chegado em agosto, havia perdido metade do ano escolar e já iria ter que prestar vestibular. Estava 6 meses atrasada e com todas essas nóias na cabeça… o jeito foi mergulhar a cabeça nos livros e esquecer de tudo que pudesse me desconcentrar. Prestei pra Publicidade e Propaganda e passei! EEE!! Agora não tem mais jeito.. seriam 4 anos de Brasil sem olhar pra trás.

Bom ou ruim? Deixei essa análise para depois. […]

A ser continuado…


Novidade! Agora você pode comentar usando seu login do Facebook :)